Minas Realmente São Muitas

Nessa edição destacaremos algumas comunidades tradicionais e sua linguística e cultural
Matrizes linguísticas quilombolas mineiras

1. Mata dos Crioulos (Diamantina)

  • Legenda: Mata dos Crioulos, Bica D’água e Algodoeiro.

Com influências culturais quilombolas, transmitida oralmente junto com saberes ancestrais. O falar na comunidade é marcado por uma forte herança dialetal e por variações regionais que incorporam contribuições fonéticas, lexicais e estruturais de línguas africanas. Esses elementos de resistência linguística refletem a herança afrodescendente no vocabulário e nas expressões idiomáticas locais, sendo um importante marcador de identidade.

Uma comunidade com forte identidade quilombola e católica com elementos de devoção popular como celebrações da Festa da Mãe Aparecida dos Crioulos que é tradição de fé e resistência. Ênfase em práticas ancestrais de extrativismo sustentável e especialmente a apanha de flores sempre-vivas e atividade econômica que é reconhecida internacionalmente.

Com uma população aproximada com 100 famílias e incluindo localidades associadas como Ponto-do-Acaba-Mundo, Cardosos, Pindaíba, Algodoeiro, Covão, Bica d’Água e Santa Cruz, o território abrange áreas de confluência com outros municípios próximos como Diamantina, Couto Magalhães, Serro, Santo Antônio do Itambé e Serra Azul de Minas, municípios esses que rodeiam e inspiram o histórico traçado da serra do Espinhaço.

Uma história de luta e resistência travada a séculos, mas a cultura e força da união da comunidade prosperou e preservou a linguística que se existe no entendimento entre eles, como o chamado vissungos, que são cantos e dialetos formados por palavras de origem bantas (como o umbundo e o quimbundo, falados em Angola) misturadas ao português. Elas funcionavam como códigos secretos para os antigos habitantes se organizarem nos quilombos e nos garimpos sem que os feitores e capatazes compreendessem o que estava sendo dito, e ainda é usada até hoje na comunidade. Contudo, existem poucas informações específicas sobre um dialeto próprio preservado, a fala reflete o português regional mineiro.

2. Quilombo Barra da Cega (ou Barra da Sega, Serro)

  • Legenda: Comunidade Quilombola Barra da Cega, no Serro.

A Comunidade é uma das menores ou mais recentes certificadas de Minas Gerais e faz parte das várias comunidades quilombolas do Serro (região de Milho Verde), que no conjunto reúnem centenas de famílias. É a 8ª comunidade reconhecida no município.

A região do Serro foi um dos grandes polos de mineração de ouro no Brasil Colonial e a formação do Quilombo Barra da Cega, assim como das comunidades vizinhas (como o Quilombo do Ausente e do Baú), ocorreu quando escravizados fugiram das lavras de ouro e fazendas de gado locais. Subindo as serras e vales da região do Espinhaço, esses grupos se isolaram para construir sua liberdade e ocuparam áreas íngremes de difícil acesso, cultivando a terra para garantir a própria subsistência. A comunidade foi oficialmente certificada como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares, consolidando-se como um importante polo de resistência e identidade negra na região. Essa conquista legal fortalece o acesso a políticas públicas e garante a proteção da memória e do território dessas famílias.

Assim como várias comunidades quilombolas em Minas Gerais, o Quilombo da Barra da Cega influenciado por linguagens de matrizes africanas criaram seus próprios criptolectos (idiomas ou dialetos secretos); dessa forma conseguiam conversar entre si, além de gírias, inversões de palavras e termos crioulos, dialetos que misturam línguas africanas antigas com o português também são conhecidos em outras regiões por nomes como Kalunga ou línguas dos catungas, servindo historicamente para proteger os seus falantes.

Os aspectos linguísticos são similares à outras do Serro como Baú e Ausente, que ainda há preservação de palavras e expressões de origem bantu (angoro, cavalo; kalunga, para água; e n’gatazamhi, para Deus) fazem parte do vocabulário de matriz africana (família linguística Bantu) preservado em comunidades quilombolas. Cânticos em vissungo, cantos de trabalho e velórios são comuns na região.

Crenças, religiosidade e cultura: Católicos e evangélicos com forte devoção a Nossa Senhora do Rosário com festa no mês de setembro (rainha dos homens pretos).

Ênfase em patrimônio cultural: Bordados (grupo de mulheres), turismo rural comunitário, agricultura e memória oral. O território é banhado pelo rio Jequitinhonha (chamado localmente Massangano). Tem grande potencial cultural e vem documentando memórias através de vídeos e projetos. Certificada recentemente pela Fundação Palmares. A região do Serro tem forte presença quilombola com tradições bantas preservadas.

  • Legenda: Comunidade Quilombola Barra da Cega, no Serro em 2025 autodefiniu como um quilombo e foi certificada pela Fundação Cultural Palmares.

3. Carrapatos da Tabatinga (Bom Despacho)

A Comunidade Quilombola Carrapatos da Tabatinga é um quilombo urbano localizado no bairro Ana Rosa, na cidade de Bom Despacho, região Centro-Oeste de Minas Gerais. Ela representa um importante símbolo de resistência e preservação cultural afro-brasileira.

Uma comunidade com raízes e povos descendentes de quilombolas e escravizados. A presença na área urbana sugere que a própria cidade de Bom Despacho pode ter origens quilombolas, comunidade reconhecida oficialmente como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares.

Luta pelo reconhecimento territorial e titulação das terras enfrentando desafios típicos dos quilombos urbanos, como pressão por desenvolvimento e preconceitos.

A comunidade mantém viva a herança africana, especialmente de origem bantu, congado mineiro, grupos como a guarda de Moçambique de São Benedito, com danças, cantos e devoções a santos de matriz africana. Festas do reinado e de umbanda, que fortalecem identidade, corpo, território e ancestralidade.

Língua da Tabatinga (ou Língua do Negro da Costa)

Um dialeto bantu preservado, que ganhou visibilidade até em produções culturais como documentários na HBO Max.

  • Origem e História: Raízes Africanas. Combinações vocabulares da África Central com o português brasileiro falado no interior de Minas Gerais por mais de dois séculos, foi mantida em segredo e passada oralmente de geração em geração dentro das famílias quilombolas. Conhecida historicamente como “língua dos engraxates”, virou tema de estudos e ganhou visibilidade nacional como patrimônio imaterial. Por ser uma língua de comunicação cotidiana e de disfarce, apresenta termos próprios como:
    • Cachar: Pegar, trazer, comer, beber, roubar ou dar.
    • Assangue: Arroz.
    • Avura: Pessoa boa, bonita ou coisa positiva.
    • Bélude: Dia.
    • Cafanhaque: Dente ou mandíbula.

Uma comunicação segura pois como os traficantes capturavam africanos de diferentes etnias, os escravizados precisavam de uma língua franca para se entender, unindo termos de suas línguas nativas com o português do interior mineiro. Acredita-se que tenha forte influência sudanesa, já que muitos dos escravizados da região vieram das lavras de ouro de Pitangui (MG). “Tabatinga” vem do tupi e significa “barro branco” ou esbranquiçado, muito comum às margens dos rios locais.

Essas manifestações culturais servem não só para celebração, mas também como forma de resistência, diálogo com a sociedade local e reivindicação de direitos.

Uma população com cerca de 500 pessoas que vive em área periférica com acesso a serviços urbanos (água, energia, escola), mas enfrenta problemas como violência, racismo, desigualdade, intolerância religiosa e falta de políticas públicas municipais específicas. Hoje, os falantes assumem postura de “herdeiros” e transmitem o vocabulário para as gerações como um símbolo de resistência e identidade afro-brasileira.

O compromisso cultural e preservador de Minas Gerais não só passa por responsabilidade, mas também por determinação de cuidar, respeitando as origens, dando-lhes os direitos necessários para sobrevivência, proteção e segurança, e com isso fazer uma reparação a essas comunidades tradicionais mencionada nessa matéria, mas em todas as outras no Estado.

  • Legenda: Carrapatos da Tabatinga (Bom Despacho) Projeto Kizomba.

Rinaldo Robson – Jornalista / fez pesquisas consultivas para essa matéria.