A 111ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, realizada no dia 26/11/2025, no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em Brasília, aprovou a inscrição do Sítio Histórico e Arqueológico de São José do Queimado (ES) nos Livros do Tombo Histórico e Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico.
O presidente do Iphan, Leandro Grass, ressaltou na ocasião o compromisso da gestão com o reconhecimento do patrimônio de matriz africana no país. “Já são diversos bens reconhecidos, e hoje o Espírito Santo reforça seu papel e seu lugar na história do Brasil” disse.
Já o superintendente do Iphan no Espírito Santo, Joubert Jantorno Filho, ressaltou que, “O Título de Patrimônio Cultural de São José do Queimado é um exemplo de construção coletiva, envolvendo técnicos, instituições e o movimento negro da Serra. Feito a várias mãos, esse processo é o modelo que buscamos para o tombamento: proteger, gerar pertencimento e fortalecer o vínculo com o bem cultural”, destacou.
177 anos separam a revolta de Queimado do reconhecimento
São José do Queimado, distrito situado no Município da Serra na grande Vitória (ES), região onde se concentrava plantações de cana, café e mandioca, era conhecida como entreposto comercial ao qual se deu o nome do distrito por queimadas de cana-de-açúcar. Naquela época, como em todo território nacional, a mão de obra escravizada era o que fazia a economia de várias cidades girarem, uma mão de obra regada a sangue e desrespeito humano.
Os escravizados desembarcavam no litoral capixaba e nos portos do Rio de Janeiro, sendo depois comercializados para fazendas locais e para trabalhos domésticos e urbanos, vindo para a Serra (ES) de várias regiões de Continentes Africanos como Angola, Congo, Moçambique, fato esse que a Cultura Bantu é predominante e caminha com a cultura, expressões como Congo, Jongo e Capoeira. O Estado recebeu africanos de várias partes com cultura e linguagens diferentes.

A Revolta de 1849
Durante a missa inaugural da Igreja de São José do Queimado, cujo nome é uma referência às freqüentes queimadas de cana-de-açúcar da região, em 19 de março de 1849, um grupo de escravizados exigiu a carta de alforria. Liderada por Elisiário, Chico Prego, João da Viúva e outros, a revolta teria sido motivada pela promessa não cumprida feita pelo pároco Gregório José Maria do Bene, que garantiria liberdade àqueles que ajudassem na construção do templo dedicado a São José.
Foi em troca da tão desejada alforria que cerca de 300 escravos construíram a igreja em Freguesia de São José do Queimado. O que eles não previam é que aconteceria um descumprimento do trato e a autonomia não viria mesmo após todo o esforço doando.
Encolerizados com a enganação, negros e negras articularam uma rebelião nas fazendas aos arredores. Os trabalhadores escravizados foram brutalmente reprimidos pela Polícia da Província, que assassinou muitos deles. A prisão de Elisiário, o grande líder do movimento, demarcou o fim da Revolta, que durou cinco dias e deixou feridos nos dois lados do confronto. Devido à fúria da insurreição, foram necessários reforços militares do Rio de Janeiro, além das tropas capixabas para conter os revoltosos.
Os rebeldes foram presos, julgando cinco deles condenados à morte. Elisiário fugiu da cadeia e escondeu-se nas matas do Morro do Moreno e nunca mais foi recapturado. Chico Prego foi capturado e enimmatado [enforcado] em 11 de janeiro de 1850. Aí há um marco de liberdade que mobilizou tropas de vários Estados ao redor da província.
A nota de pedido de intervenção, datada do dia de 1840 [1849] pelo Presidente da Província do Espírito Santo, Visconde de Monte Alegre, mostra a preocupação:
“Ontem pelas três horas da tarde soube que um grupo armado de trinta e tantos escravos perpetuara o crime de insurreição no distrito do Queimado, três a quatro léguas distante desta capital, invadindo a matriz na ocasião em que se celebrava a missa conventual e levantando os gritos de Viva a Liberdade, queremos carta de alforria. Este grupo seguiu depois a direção de engenho Fundão, de Paulo Coutinho de Mascarenhas, e o obrigou a entregar-lhe os seus escravos e passar-lhes carta de liberdade, as armas e munição que possuía, o mesmo fez em outros engenhos de maneira que conseguiu elevar o seu número a cerca de trezentos.
Imediatamente fiz partir para aquele lugar o chefe de Polícia acompanhado de uma força de vinte praças da Companhia Fixa de Caçadores, comandada por um oficial. Escusado é narrar a V. Excia. o susto e terror de que se acham apoderados os habitantes desta capital e lugares circunvizinhos, maxime por virem a pequena e diminuta força de que o governo pode dispor. A população da capital está animada do melhor espírito de ordem e não se esquiva a trabalho algum, contudo não posso deixar de requisitar a V. Excia., uma força pelo menos de cem praças de Infantaria ou caçadores de primeira linha do Exército e bem assim armamento, equipamento e munições de guerra com que eu possa acudir a alguns pontos da Província em que iguais acontecimentos hajam por infelicidade deste lugar, que é muito presumível, atento o estado da escravatura dela que é o mais alastrado possível. O alcance que pode ter semelhante insurreição nesta Província e noutras do Império, em que abunda a escravatura, V. Excia., bem o avalia e julgará portanto se deve ou não ver satisfeita a minha requisição. Agora, recebo o ofício datado de hoje do chefe de Polícia da Província de que cópia autêntica remeto a V. Excia., donde V. Excia., verá o ataque que teve lugar entre as forças do governo e parte dos negros insurgidos. Finalmente cumpre-me dizer a V. Excia., que não durmo sobre tão importante fato e sobre o estado da Província hoje tão melindroso e que faço quanto em minhas atribuições couber e minhas forças o permitirem para que a Província volte ao estado normal de quietação e paz. Vitória, vinte de março de 1849. Ao Visconde de Monte Alegre Ministro de Estado dos Negócios do Império Antônio Joaquim de Siqueira, presidente (Pres. ES, VIII).”
Fontes: História do Estado do Espírito Santo, 3ª edição, Vitória (APEES) Arquivo Público do Estado do Espírito Santo Secretaria de Cultura, 2008 e morrodomoreno.com.br
Fórum Chico Prego: Organização e Resistência

Foto: Acervo Iphan

Foto: Acervo Iphan
O Fórum Chico Prego é um importante espaço de organização e resistência do movimento negro na cidade de Serra (ES), especialmente ligado à memória da Insurreição de Queimado (1849). Ele atua na preservação histórica, cultural e patrimonial do Sítio Histórico de São José do Queimado, promovendo educação, eventos e debates sobre a luta antirracista. Surgiu em 1998, reunindo grupos organizados da Região Metropolitana de Vitória, como terreiros de religiões de matriz africana, movimentos negros e coletivos culturais. O nome homenageia o líder da revolta e simboliza a continuidade da luta por memória, dignidade e justiça.
Desde então, o Fórum organiza anualmente os Festejos de Queimado (em março), que incluem: Caminhada Noturna (ou dos “Zumbis Contemporâneos”) Celebrações macroecumênicas/afro-religiosas, seminários, corridas e atos culturais e também entrega a Medalha Chico Prego a personalidades e entidades que se destacam na luta do povo negro.
O Fórum tem parceria constante com a Prefeitura de Serra (secretarias de Cultura, Turismo e Direitos Humanos), IPHAN, universidades e associações como os Guardiões de Queimado.
Para a Comunidade Negra da Serra a Preservação de Queimado foi fundamental para o tombamento do Sítio Histórico e Arqueológico de São José do Queimado (pelo Conselho Estadual de Cultura em 1993 e avanços posteriores com o IPHAN), organizando seminários de avaliação (como em 2020 e 2026) para debater avanços, desafios e planos de preservação após o tombamento. Resgate da memória e educação. Combate o esquecimento da história de resistência negra, dialogando com a Lei 10.639/2003 (ensino de História e Cultura Afro-brasileira). Promovendo debates, pesquisas e atividades educativas sobre a Insurreição como símbolo precursor de lutas por liberdade e contra o racismo. O empoderamento e luta atual fortalece a identidade da comunidade negra da Cidade Serrana, conectando o passado (resistência à escravidão) com pautas contemporâneas como direitos humanos, combate ao racismo e valorização da cultura afro-brasileira é um espaço de articulação entre movimentos sociais, poder público e pesquisadores.
Visibilidade cultural eventos anuais atraem a população, reforçam o turismo cultural e mantêm viva a tradição, com apoio institucional crescente.
Em resumo, o Fórum Chico Prego transforma a memória da Insurreição de Queimado em ação coletiva preserva o sítio histórico, educa novas gerações e afirma a importância da resistência negra na formação do Espírito Santo e do Brasil. É um dos principais referenciais do movimento negro capixaba.
Encontros e ações de fortalecimento e engajamento
O último encontro do fórum realizado em março de 2026 reuniu representantes de movimentos sociais, pesquisadores, lideranças comunitárias e instituições públicas para refletir sobre os avanços e desafios após o tombamento definitivo do Sítio Histórico e Arqueológico de São José do Queimado. A iniciativa integrou as ações voltadas à preservação da memória da Insurreição considerada um dos principais movimentos de resistência contra a escravidão no Espírito Santo e no Brasil. O encontro também buscou fortalecer o diálogo entre sociedade civil e poder público na construção de estratégias para valorização e preservação do patrimônio histórico e cultural da região.
“Foram vários anos com encontros, reuniões e sempre construindo ações para que não perdêssemos as ruínas de queimados, nessa trajetória várias companheiras e companheiros deixaram suas contribuições nessa luta, o movimento negro da Serra começou as articulações a vários anos para que o sitio arqueológico de queimados se tornasse patrimônio Cultural” afirmou Rosemberg Moraes ativista do Movimento Negro e do Forum Chico Prego.
Para Penha Gaspar integrante Fórum e liderança do Movimento Negro e da Marcha das Mulheres Negras da Serra destacou que “com a criação do Forum a mobilização atravessou fronteiras envolmento a sociedade civil, Governamental e intituicões em uma maratona politica social que resultou com a preservação e a conscientização para a valorização Histórica, chegando ao reconhecimento da revolta de queimado e com isso o patrimônio Cultural.”

Foto: Acervo Iphan
“o pedido para que o sitio Histórico de queimados se tornasse patrimônio Cultural começou a mais de 25 anos e é de conhecimento de todos que tentaram apagar a nossa historia, a revolta dos escravizados naquele ano de 1849 não poderia ser esquecida e a nossa luta de Mulheres e Homens Negros Capixabas foi a presevada com esse título” concluiu Penha.
Já para Rosa Maria defensora dos Direitos Humanos e também fundadora do Forum Chico Prego afirmou que:
“As conquistas do Movimento Negro da Serra sao conquistas de toda comunidade pois com esse reconhecimento de titularização e tombamento confirma se a revolta e o grito de liberdade dos escravizados em queimado”.
Brasil, o País que mais Escravizou
4,9 milhões de africanos foram trazidos para o Brasil entre os anos de 1538 a 1850 a maioria saiu da costa ocidental do sudoeste da África o Estado da Bahia recebeu o primeiro navio com escravizados vindo em sua maioria de Angola, Gana e Benin. Eles eram capturados na África e trazidos à força para a América, os que sobreviviam à travessia chegando eram separados de seus grupos e misturado a outras tribos fazendo assim uma mistura para que não pudessem se comunicar. A mão de obra era obrigatoriamente usada no plantio de cana de açúcar, algodão e tabaco nas fazendas e os escravizados eram uma riqueza pois podiam ser vendidos, alugados ou até mesmo leiloados.
A chegada de escravizados no Estado do Espírito Santo começou no ano de 1621 mas estima se que desde 1540 já havia escravos trabalhando nas lavouras de cana de açúcar na região.