A Casa D’Preto ocupa o Sobrado Ramalho e traz à 10ª Semana Criativa de Tiradentes programação inédita de arquitetura, arte e cultura afro-brasileira
Com curadoria da rede Arquitetura D’Preto, ocupação histórica no edifício-sede do IPHAN reúne exposição com 12 artistas locais, I Encontro Nacional do HUB Arquitetura D’Preto, lançamento de plataforma online e ativações que articulam congado, culinária, música, dança e cinema
Em 2026, a Semana Criativa de Tiradentes celebra dez anos apresentando ao público do festival uma novidade de forte simbolismo reparatório. Pela primeira vez na história do festival de criatividade e cultura idealizado pela jornalista Simone Quintas e pelo produtor cultural Júnior Guimarães, o Sobrado Ramalho, sede do IPHAN, será ocupado por uma programação que coloca a arquitetura, a arte, as tecnologias e os saberes ancestrais da cultura afro-brasileira no centro do debate.
Uma realização da Arquitetura D’Preto, hub de arquitetura e urbanismo criado em 2020 com profissionais de todas as regiões do Brasil, A Casa D’Preto estreia na 10ª edição do festival com uma experiência imersiva que articula exposição, encontros, ativações artísticas e lançamentos. Guiada pelo símbolo Adinkra Eban – que representa amor, segurança, abrigo e proteção –, a ocupação transforma o edifício do século XVIII em um território vivo de memória, afeto e reinvenção afrodiaspórica.
“O design continua sendo o pilar mais importante para nós, mas o festival hoje é muito mais amplo. Ele fala de cultura brasileira por meio da música, da arte, da arquitetura, do artesanato, da moda, da gastronomia, dos territórios e das diferentes formas de criação. Projetos como A Casa D’Preto trazem outros repertórios, outras vozes e novos públicos para dentro da programação”, destaca Simone.
Sob a curadoria dos arquitetos Pedro Rubens e Heloisa Nascimento, com uma programação que se desdobra de 15 a 18 de outubro, A Casa D’Preto ocupa e ativa o Sobrado Ramalho: a fachada e entrada como portal de transição e proteção; a sala de exposição com a mostra Orí-gem, que reúne 12 artistas locais; o Terreiro Mineiro como espaço de bate-papos, trocas e escuta ativa; e a antiga senzala, reativada como o altar – um gesto simbólico de reverência e de celebração aos ancestrais.
A programação inclui ainda o I Encontro Nacional do HUB Arquitetura D’Preto, reunindo coordenadores de 17 estados brasileiros e de Lisboa; o lançamento da Plataforma Arquitetura D’Preto, espaço online que conecta clientes a profissionais negros da construção civil; o lançamento da coleção de luminárias Igbá de Luz, de Dih Morais e Vitória Denia; o Circuito-Vivo das Paisagens Afromineiras, assinado pela paisagista Tainã Dorea; e a exibição do documentário A Casa D’Preto, produzido pela Ubira Filmes, com direção de Daniel Pereira e Tainara Matos.
“A diversidade de ações programadas para a estreia d’A Casa D’Preto ajuda a ampliar o olhar sobre o Brasil e mostra que a criatividade brasileira não pode ser compreendida a partir de uma única região, estética ou linguagem. Essa pluralidade é fundamental para aquilo que queremos que a Semana seja: um espaço de encontro entre diferentes expressões da cultura brasileira”, defende Guimarães.
Uma ocupação que ressignifica a ideia de patrimônio
A escolha do Sobrado Ramalho não é casual. Construído no século XVIII, o edifício-sede do IPHAN em Tiradentes carrega em suas paredes as marcas de um passado colonial que o projeto A Casa D’Preto tensiona sem apagar. A proposta expográfica, concebida pelos arquitetos Pedro Rubens, Heloísa Nascimento, Alexandre Sales e pela estudante de arquitetura Giovana Teixeira, parte da fricção entre a estética preservada e as violências que a sustentaram propondo um deslocamento: produzir afeto como prática e construção coletiva sensível do espaço.
“Participar da celebração dos dez anos da Semana Criativa de Tiradentes e ocupar o Sobrado Ramalho com A Casa D’Preto é ampliar a ideia do que é patrimônio. É colocar dentro de um espaço totalmente institucional saberes que não deixaram de existir, mas que nem sempre foram reconhecidos como parte fundamental daquilo que constitui e construiu o Brasil. O patrimônio não é só uma parede, não é só um mobiliário, não é só uma arquitetura – é também o conhecimento, a oralidade, o gesto, a técnica, a memória, os modos de fazer, de cuidar e de construir uma comunidade”, defende Heloisa – que é, também, vice-presidenta do HUB Arquitetura D’Preto.
A ocupação reativa camadas historicamente apagadas, como a senzala, hoje reduzida a depósito. Longe de ignorá-la, A Casa D’Preto a ativa como o altar – um espaço de encontro individual e coletivo, reverência e afeto.
“Quando falamos em ‘resgatar o ouro que nos foi roubado’, existe uma provocação muito consciente, especialmente estando em Tiradentes, em Minas Gerais. Para nós, ele não é apenas a matéria, mas o ouro dentro dos saberes, das nossas tecnologias, da nossa capacidade criativa, das nossas memórias e da possibilidade de contar a nossa própria história. Durante muito tempo, pessoas negras participaram da construção material, cultural e simbólica do país, mas nem sempre puderam ocupar o lugar de autoria. A Casa D’Preto nasce para reposicionar essas autorias”, complementa Heloisa.
Orí-gem: 12 artistas locais em diálogo com a ancestralidade
A exposição Orí-gem – cujo nome remete ao “Orí” a divindade interna de cada ser na cosmologia iorubá – reúne pinturas, esculturas, fotografias e artesanatos de 12 artistas locais e uma artista goiana convidada, com curadoria das arquitetas Lívia Faria e Vitória Condé. A mostra é estruturada a partir de quatro princípios fundamentais: Saber (habilidades em si), Técnica (método em que o saber é usado), Corpo (detentor do saber) e Território (o que provém de nós) – elementos que, para além das obras expostas, constituem a construção do indivíduo em seu entorno e em sua história.
“A exposição Orí-gem procura redefinir o próprio conceito de tecnologia. Ela desconecta a ideia de uma estética europeia, industrial e fria, e a situa na materialidade terrosa e nas sabedorias afrodiaspóricas, validando conhecimentos ancestrais como legítimas tecnologias de sobrevivência e criação. Levar essa mostra para o festival tem um peso político enorme no contexto de Tiradentes – um território historicamente marcado por uma arquitetura colonial erguida por mãos negras que foram silenciadas. Dar visibilidade a esses 13 artistas locais funciona como um ato direto de reparação histórica, ocupação, reposicionamento e fortalecimento da nossa narrativa”, afirma Pedro Rubens, cofundador da Rede Arquitetura D’Preto.
Entre os artistas participantes estão: Arthur Cosfer, arquiteto e designer, idealizador do laboratório de criação Dupla de2 e sócio-diretor do Brasileiro Studio, que apresenta luminárias desenvolvidas em aço oxidado; Bruno Amarante, cuja pesquisa “Monumentos Entrópicos e a Paisagem Minerária do Ferro” dialoga com a devastação causada pela mineração; Bruno de Souza, multiartista que une ancestralidade, skate e música; Claudinei do Nascimento (Mestre Prego), artesão e capitão do Congado de Tiradentes; Élida Nascimento, cuja obra se constitui como manifesto e instrumento de enfrentamento ao racismo e às amarras que historicamente atravessam os corpos negros; Elizabeth Ramos, artista de linguagem híbrida com pesquisa em visualidades negras; Felipe Sant’Anna, fotógrafo, arquiteto e urbanista; Greice Rosa, artista goiana que investiga suportes sustentáveis a partir do cânhamo; Hudson Silveira, pesquisador que intersecciona tecnologias ancestrais e sustentabilidade contemporânea; Selma Maria, mestra artesã há mais de 30 anos; Lilian Almeida, ceramista, coreógrafa e carnavalesca; Thiago Guimarães, colagista e pesquisador da presença negra na história da arte; e Waguinho, mestre artesão e herdeiro de uma tradição familiar de mais de 50 anos dedicada ao fazer artesanal da serralheria.
A Casa D’Preto – 10ª Semana Criativa de Tiradentes
Data: 15 a 18 de outubro de 2026
Local: Sobrado Ramalho – sede do IPHAN. Rua Direita, Tiradentes (MG)
Programação: gratuita, com inscrições para oficinas e palestras no site oficial
Para mais informações e inscrições: www.semanacriativadetiradentes.com.br
A programação completa do festival será divulgada a partir de 5 de outubro de 2026.